Artigo: Queremos governança “padrão FIFA”

Alexandre Espirito Santo de Ibmec-RJ

Governança corporativa é algo extremamente sério! Inúmeros foram os casos pelo mundo afora de gestões temerárias que impuseram enormes perdas para acionistas de boa fé. Só para citar os mais conhecidos: Enron, WorldCom e MCI. Existem alguns casos fúnebres também em nosso país, e penso que deveríamos ficar atentos para que novos não ocorram.

Quando a Bovespa estabeleceu, no início do século XXI, as regras para que as empresas brasileiras aderissem – por livre e espontânea vontade – à governança corporativa “padrão Fifa” – para usar o termo da moda –, não era para ser mais uma das “coisas para inglês ver” que acontecem em nosso país. Pelo menos não deveria!

Em minha dissertação de mestrado, estudei a fundo o impacto da adoção de boas práticas de gestão em empresas negociadas em nossa bolsa. Desenvolvi um modelo econométrico, onde pude confirmar, com dados reais, aquela sensação abstrata de que administração responsável reverte-se em maior valuation, pela redução de custos de captação/risco.

Mas por que existe ainda tanta desatenção por aqui em relação a assunto tão relevante no mundo todo?

Penso que a resposta passe por desconhecimento. Alguns alunos me indagam, por exemplo, sobre o porquê de empresas importantes, como a Petrobras, não aderirem a um dos três níveis da Bolsa; minimante o nível 1.

Minha resposta, nesse caso, é sempre a mesma: “Se é para fingir, melhor não ter”. Ademais, existem algumas empresas que não conseguiriam, efetivamente, cumprir determinadas exigências que a BMFBovespa impõe. Muitas, alternativamente, desenvolvem padrões internos de governança, como é o caso da Petrobras. O fato é que não podemos cobrar algo que não é devido. Porém, devemos cobrar, quando se é (com)prometido.

Boa governança não é somente cuidar das finanças empresarias. Passa por uma série de posturas, inclusive éticas – para ficar na moda, novamente. Acordos pouco transparentes e conchavos não condizem com empresas sérias. Os órgãos reguladores, o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), os investidores e as próprias empresas precisam ficar atentos e cobrar, para o amadurecimento de nosso mercado de capitais. Precisaremos dele para uma economia mais dinâmica.

Para finalizar, o que vem ocorrendo com a gestão de algumas empresas listadas no mais alto nível da BMFBovespa – o chamado novo mercado – é uma afronta às boas práticas de governança corporativa. Penso que nossa bolsa precisa mostrar a importância de que a adesão às regras estabelecidas não é para “inglês ver” e tomar atitudes punitivas, para enfatizar a relevância do tema. É um bom momento para tal.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *