Investidor x Empreendedor

Por Annibal Ribeiro Lima – SAPEG

Tenho presenciado inúmeros debates onde os chamados “investidores profissionais” são colocados como uma ameaça às companhias onde detêm participação. Algumas vezes, como que para amenizar a posição de lobo mal deste investidor na companhia, destaca-se o lado positivo de sua participação, por conta da demanda pela instalação/aperfeiçoamento na governança corporativa da empresa.

De qualquer forma, tenho calafrios sempre que se dá início a colocações sobre estes investidores, a maneira como se trata deste assunto chega a ser surreal. O primeiro passo, para que este “suposto” conflito deixe de ter a característica de “um intruso oportunista se aproveitando do empreendedor inocente que não teve alternativas para viabilizar seu crescimento”, é entender que todos os acionistas são investidores, inclusive o empreendedor.

É isto mesmo! O empreendedor, seja ele o fundador ou quem deu continuidade ao trabalho do fundador, também é um investidor. A diferença, não só entre o investidor empreendedor e/ou qualquer outro acionista da empresa, está smente, na expectativa do que se espera pelo investimento.

Tudo irá se resumir na equação que trabalha com as variáveis “Retorno x Risco” + Tempo, é nesta equação que iremos encontrar as principais razões para eventuais conflitos entre acionistas, sejam eles, ligados ou não ao empresário original.

Quando um empreendedor dá início a um negócio, sob forma de uma empresa, automaticamente ele faz uma conta que irá envolver o risco que se está correndo em relação ao retorno que se espera. Esta conta original irá sendo atualizada constantemente no decorrer do tempo, o que definirá o desenvolvimento da companhia.

Enquanto a companhia permanece gerida e controlada pelos empreendedores originais, a avaliação da equação acaba sendo efetuada no dia a dia, de maneira quase que, informal e instintiva. Quando o empreendedor inicial é uma única cabeça, a avaliação da equação é praticamente imperceptível, vira parte do dia a dia. Já quando é mais de um sócio que dá origem ao negócio, a ”tal da equação” está sempre na eventualidade de gerar conflito, dado que a qualquer momento os sócios podem interpretar o resultado da equação de forma diferente em relação a sua expectativa.

Os conflitos tendem a ganhar intensidade, à medida que as novas gerações dos empreendedores originais chegam à idade profissional, quando alguns poderão participar como executivos além de acionistas, quando perfis de “risco x retorno” diferenciados irão despontar e, quando começam a surgir idéias de diversificação.

Os sucessivos movimentos societários que venham a ocorrer na empresa, acrescentando novos acionistas à companhia, sejam eles investidores profissionais ou “amadores”, ligados ou não à família dos empreendedores originais, acrescentam também, novas cabeças, cada uma delas com uma expectativa de retorno, de risco e, de tempo para o INVESTIMENTO.

Assim como um investidor de renda fixa, que irá investir de acordo com o risco da instituição investida; de acordo com a taxa oferecida e; por um prazo onde ele consiga fazer uma previsão que o satisfaça, o investidor em uma companhia, irá realizar também uma análise destas variáveis ao cogitar se tornar um acionista na empresa.

Com a diversidade de perfis na composição acionária de uma empresa, é normal que haja a aproximação daqueles que possuam perfis semelhantes, para que sua expectativa de “Risco x Retorno + Tempo” seja representada na estratégia da empresa. É aqui que a visão do “investidor profissional” como um intruso, começa a se formar.

Todo acionista visa à maximização sustentável do valor da companhia, que afinal é o seu ativo. O conflito aparece por que esta maximização é relativa, e não pode ser avaliada sem seu fiel companheiro, o risco.

Para complicar ainda mais o cenário, agreguemos o “Tempo” em nossa análise, “Tempo” que em primeiro lugar, dada a possibilidade da entrada de acionistas na empresa em momentos diferentes, momentos em que a companhia tem valores diferentes, torna diversa a expectativa para a estratégia à frente. Tempo que ainda, e esta parece ser a maior preocupação do empresário, demoniza a postura do investidor profissional que cogita sair da operação quando a criação de valor esperada por ele maturar, o que cá entre nós, representa nada mais nada menos, do que a constante avaliação de Risco x Retorno que todo acionista, inclusive o empresário está, ou deveria estar fazendo.

Em resumo, o que eu gostaria, é de desmistificar a imagem demoníaca criada no mundo corporativo para o “investidor profissional”, que é apenas mais um, além dos empreendedores, dos herdeiros, das famílias acionistas, dos “investidores amadores” a compor a estrutura societária da companhia, apesar de ser mais um também, que vem com expectativas novas de “Retorno x Risco” + “Tempo”.

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