Dólar afeta investimento de private equity

Por Vinícius Pinheiro – VE

A desvalorização cambial deve afetar o retorno dos fundos de private equity, que investem na compra de participações em empresas com o objetivo de revendê-las com lucro. Como as principais gestoras que atuam no país captam a maior parte dos recursos no exterior, a alta do dólar diminui o valor das companhias do portfólio e o ganho potencial dos investidores. Por outro lado, o real mais fraco aumenta o poder de fogo dos fundos nas novas aquisições.

Em meio à euforia com relação aos emergentes no início da década, o Brasil atraiu pouco mais de US$ 8 bilhões para investimentos em private equity só em 2011, quando o dólar estava na casa de R$ 1,60. Ou seja, os fundos que fizeram negócios com o câmbio de dois anos atrás amargam uma perda de até 40% com a valorização da moeda americana.

Como os fundos investem em um período que, em geral, leva até quatro anos, o efeito do dólar varia de acordo com o momento em que os negócios são realizados. “É claro que o ideal seria ter o câmbio a favor sempre, mas no geral o efeito sobre o portfólio como um todo não é expressivo”, afirma Piero Minardi, sócio da Gávea Investimentos.

Uma alternativa para neutralizar o efeito cambial seria a contratação de “hedge” (proteção) para o portfólio, mas os custos inviabilizam a operação, segundo Minardi. A expectativa é que o resultado das empresas investidas compense eventuais perdas com a desvalorização do real, diz o executivo da Gávea, que em 2011 captou US$ 1,9 bilhão, no maior fundo destinado a aquisições no país.

De olho na tendência de aumento na renda da população, os fundos fizeram grandes investimentos no setor de consumo nos últimos anos. A Gávea é sócia de empresas como a camisaria Colombo e a empresa de alimentos Camil. A americana Carlyle adquiriu o controle da varejista de brinquedos Ri Happy e da loja de móveis Tok&Stok. A GP Investimentos também aumentou a presença no setor com os investimentos na Centauro, rede de lojas de artigos esportivos, e na Beleza Natural, de cosméticos e salões de beleza.

O dólar também afeta os custos de algumas dessas companhias, que importam manufaturados principalmente na China. Os gestores acreditam, porém, que as empresas têm capacidade de repassar esse aumento, por deterem posição de liderança nos mercados em que atuam.

Ainda que haja uma perda do lado operacional, os fundos apostam no crescimento das empresas do portfólio via consolidação, com a aquisição de concorrentes. “O diferencial de retorno que o mercado brasileiro oferece mais do que compensa o risco cambial”, afirma Sidney Chameh, sócio da DGF Investimentos e conselheiro da Abvcap, associação que representa o setor.

Chameh não descarta que a alta do dólar provoque efeitos negativos para os fundos, mas diz que a variação da moeda até o momento não preocupa. Do ponto de vista dos estrangeiros que aplicaram nos fundos, o executivo da Abvcap afirma que a decisão de se expor ao risco em real já previa a possibilidade de variação cambial. “No momento de diversificar o portfólio, a maior parte dos investidores leva esse fator em consideração”, diz.

Como os fundos podem ficar nas companhias por períodos longos, em média de oito a dez anos, alguns gestores podem adiar a decisão de vender as participações que detêm nas companhias em razão do câmbio desfavorável. Mas para José Paulo Rocha, sócio-líder da área de finanças corporativas da Deloitte, essa decisão é válida apenas se as empresas ainda estiverem em “fase de crescimento”. “Se o trabalho do gestor já foi feito, custa caro se manter na companhia”, afirma.

O desempenho dos fundos é avaliado basicamente de duas formas: o múltiplo recebido sobre o capital investido e a taxa interna de retorno. O primeiro mede a diferença entre o valor recebido pelo fundo com a venda da participação na companhia em relação ao preço pago na entrada. A taxa de retorno mede esse ganho ao longo do tempo. Ou seja, vale mais a pena, por exemplo, vender uma posição com 100% de ganho em dois anos do que conseguir uma valorização de 200% em cinco.

Se por um lado o dólar alto reduz o retorno potencial dos fundos que captam recursos no exterior, por outro torna os novos investimentos mais atrativos, segundo Rocha. Uma das reclamações recorrentes dos gestores nos últimos anos tem sido o preço alto das empresas brasileiras. “Entrar agora pode fazer sentido”, diz o executivo da Deloitte.

As incertezas com relação à economia e à tendência para o câmbio podem, contudo, diminuir o interesse dos investidores em trazer recursos para o país. “Os gestores estão em dúvida em relação ao melhor momento de se aplicar. O grande temor é que o real se desvalorize ainda mais em breve. Isso poderia tornar os ativos ainda mais baratos. É um fator de incerteza”, diz Marcos Rafael Flesch, sócio do escritório de advocacia Souza, Cescon, Barrieu & Flesch.

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