Apego ao curto prazo custa dinheiro

Por Arlindo Penteado e Stefano Catinella – VE

Em coluna publicada em 1º de novembro no The Wall Street Journal intitulada “How Investors Leave Billions on the Table”, o colunista Jason Zweig comenta com propriedade sobre o comportamento dos investidores americanos em hedge funds ou em investimentos de alta volatilidade (renda fixa/ações). O autor menciona que investidores usualmente buscam superar retornos em seus investimentos em períodos de mercados em alta e evitam retornos negativos em períodos de mercado em baixa. Isso os leva a obter retornos inferiores àqueles auferidos por investidores que mantêm posições de longo prazo nos fundos.

Em estudo publicado em 2007 no Journal of Banking & Finance, os professores Geoffrey Friesen e Travis Sapp concluíram que investidores reativos à performance de curto prazo (“timing” nas aplicações e resgates) obtiveram retornos 1,56% ao ano inferiores aos que mantiveram investimentos no longo prazo (entre 1991 e 2004). A razão desse baixo aproveitamento estaria relacionada ao fato de o investidor sempre reagir à performance recente dos fundos. Desempenhos recentes insatisfatórios motivam saques com eventual realização de perdas, o que impossibilita o aproveitamento de qualquer recuperação das cotas em períodos subsequentes. Esse comportamento, conhecido como “return-chasing behavior”, também é observado no mercado brasileiro, especialmente junto a investidores de fundos multimercados.

A categoria de fundos multimercados engloba vários tipos de fundos, sendo que a maioria difere bastante dos chamados hedge funds globais. Tanto em nível de risco (mais baixo, em média), como em amplitude do mandato (diversidade de mercados em que atua). Apesar das diferenças, nós, brasileiros, muito nos assemelhamos ao perfil de investidor descrito por Jason Zweig. De certa forma, o histórico de altas taxas de juros no Brasil, associado à liquidez diária dos investimentos, acentuou esse comportamento mais reativo. Seremos capazes de conciliar horizontes de investimento mais longos com o acompanhamento diário da rentabilidade dos nossos fundos?

Infelizmente, o passado recente nos condena. Percebe-se que os líderes dos rankings de rentabilidade (anuais e algumas vezes até trimestrais) acabam por serem os líderes de captação nos períodos seguintes. O inverso também é verdadeiro. A tolerância do investidor para períodos ruins de desempenho também parece ser muito baixa. Quanto menor o prazo de análise, maior a tendência de um comportamento mais reativo pelo investidor. Perdas e ganhos de curto prazo motivam entradas e saídas dos fundos. Um mecanismo cruel.

Em um estudo que realizamos com alguns gestores brasileiros – de fundos multimercados com histórico de retorno superior a cinco anos que estavam em posição de destaque nos rankings de 2005 a 2013 -, observamos que 93% dos cotistas obtiveram um alfa (retorno em excesso ao benchmark) médio de apenas 0,63%, enquanto o alfa gerado pelos fundos em que esses investidores aplicavam os recursos foi de 2,60% no mesmo período. Como mudar esse quadro, em que o investidor ganha menos que o gestor na maioria das vezes? Parte é responsabilidade do próprio investidor, que precisa exercitar melhor sua “paciência” e suportar períodos de alta volatilidade. E parte é responsabilidade dos profissionais que prestam assessoria a esses investidores.

Os rankings de curto prazo também influenciam o julgamento qualitativo dos gestores, separando o mercado entre heróis e vilões. Em uma indústria com número crescente de gestores, esse fato também traz algumas armadilhas para os investidores. Até que ponto conseguimos blindar nosso julgamento qualitativo da influência dos rankings? De fato, poucos são os gestores que regularmente conseguem frequentar as primeiras colocações dos rankings ao longo de vários anos. Mesmo esses raramente conseguem fazer isso por três anos seguidos. Não é à toa que ao olharmos os fundos que aparecem como destaque ano a ano nos rankings de performance, temos um percentual relevante de alternância nas primeiras posições. Muitos aparecem como destaque em certo período, porém perdem relevância, ou mesmo não aparecem, em rankings de períodos seguintes.

O investidor deveria considerar com cuidado a consistência de retornos no longo prazo ao invés de observar retornos absolutos de curto prazo (mensais e trimestrais). Superar esses desafios torna-se mandatório, sobretudo em um ambiente de taxas de juros mais baixas e mercados mais eficientes.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *