A bolsa de valores é para poucos

Por Sérgio Goldman – VE

É inquestionável que o volume de recursos aplicados em ações no Brasil é extremamente baixo. Segundo dados da Anbima, em novembro de 2013, apenas 8,6% dos recursos geridos pela indústria de fundos de investimento estavam alocados em ações. É um volume pífio, mesmo considerando que parte dos 20% investidos em multimercados também está alocada em ações. Isso fica ainda mais claro quando somamos ao total em fundos o saldo da poupança, de R$ 580 bilhões em novembro. Nesse cenário, a fatia alocada em ações cai para 7,7%, ante o percentual de 13% que os fundos de ações chegaram a concentrar da indústria em 2008 – melhor momento recente da bolsa em termos de atração, quando o Brasil atingiu o chamado grau de investimentos.

Este patamar, apesar de bem maior que o atual, ainda é bastante baixo, já que, em um ambiente com taxa real de juros entre 2% e 4% ao ano, uma participação de cerca de 20% seria o mais esperado.

Ao contrário do que prega parte do mercado, é irrealista achar que a ampliação do volume de negócios na bolsa virá de pequenos investidores e que a aplicação no mercado de ações se tornará parte do cotidiano da classe C. Sim. Devemos ter mais fluxo de recursos para a bolsa, mas deve-se incentivar o público-alvo correto, levando-se em conta seu perfil e volume de recursos disponível para investimentos.

O fator renda é um limitador importante para que a classe C brasileira entre maciçamente no mercado de ações. E, embora muitos comparem o contexto do país com o dos EUA, não podemos esquecer que, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a renda média americana é quase cinco vezes superior à verificada no Brasil.

Atualmente, vários institutos de pesquisa estratificam a sociedade brasileira por renda. Não há, portanto, um levantamento único que aponte o número de famílias brasileiras em cada classe social. Apesar disso, ao considerar a média dos diversos dados usados pelos diferentes institutos de pesquisa, é possível dizer que o público-alvo a ser convidado para investir em bolsa de maneira mais intensa deveria ser a classe A, com renda familiar acima de R$ 10 mil por mês.

E qual o tamanho da classe A no Brasil? Novamente, vários números diferentes se apresentam, dependendo da pesquisa utilizada, mas, escolhendo a base de dados do Ibope Inteligência, podemos dizer que 2,6% dos domicílios no Brasil são da classe A, algo equivalente a 1,6 milhão de casas. Se considerarmos que cada um destes domicílios efetivamente tenha potencial investidor para a bolsa, é possível elevar o número de investidores dos atuais (e, por muitos, considerado superavaliado) 600 mil para até 1,6 milhão de pessoas. Afinal, mesmo na classe A, há quem opte por consumir de modo que não haja excedente a poupar. Como propiciar que este contingente amplie seus investimentos em bolsa?

Em parte isso depende do cenário macroeconômico: quanto menor a taxa real de juros, maior a propensão a aumentar a alocação em ativos de risco mais elevado. O maior investimento em bolsa depende também da atratividade do mercado para pessoas físicas, o que poderia ser solucionado com a ampliação do número e da variedade de empresas e setores listados em bolsa. Segundo pesquisas realizadas em mercados desenvolvidos, o investidor pessoa física se sente mais confortável em alocar recursos em negócios que ele entende ou conhece e usa como consumidor.

Isso mostra que a educação é fator crucial para a ampliação do volume de recursos. Mas não devemos nos enganar. O esforço de educação não é tão simples como pode parecer, uma vez que a decisão de investimento em ações é tarefa complexa: envolve um número grande de variáveis a serem estimadas e capacidade de desenhar cenários prováveis e alternativos para o caso de essas variáveis não se comportarem como esperado.

 

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