Dose extra de alta de juro pode ser contraproducente

Antonio Perez – VE

Recém-chegada à XP Investimentos, em que ocupa o cargo de economista-chefe, Zeina Latif alerta: o espaço para altas adicionais da taxa básica de juros está cada vez mais estreito. Uma dose muito mais elevada de aperto monetário pode ser contraproducente, abalando os investimentos e, por tabela, a capacidade de crescimento da economia brasileira. Na tarefa de segurar a inflação, a bola está agora com a política fiscal. “Independentemente se o BC vai subir os juros mais 0,25, 0,50 ou 0,75 ponto, o que importa é que, sem a política fiscal, não dá para trazer a inflação para o centro da meta” afirma. Confira a entrevista.

Valor: A ata do Copom trouxe sinais de até onde vai a Selic?

 Zeina: Não dá para tirar conclusões definitivas da ata em relação ao ciclo de aperto. O Copom não tem sinalizado antecipadamente mudanças e sempre deixa a porta aberta para qualquer decisão com algumas dubiedades. Talvez nem BC saiba o que vai fazer em ambiente tão fluido. Provavelmente, estão ainda observando o desenvolvimento da economia e não caberia agora grandes sinalizações. A decisão em fevereiro está em aberto. A nossa aposta é uma alta de 0,25 ponto com fim do ciclo. Não pela sinalização da ata em si, mas pela nossa visão da atividade econômica e sobre a inflação.

 Valor: E qual é essa visão?

 Zeina: A materialização do efeito do aperto da política monetária sobre a economia que já começou a acontecer em 2013. Mas a maior dele vai acontecer este ano. Na ata, o Copom afirma que vai haver uma mudança do peso do consumo na composição da demanda agregada. Ainda que o BC não possa dizer que o consumo vai desacelerar porque ele subiu os juros, ele trabalha com essa expectativa. O Copom tem uma visão benigna do investimento com que eu não concordo. Mesmo que tenha alguma contribuição de concessões, não será muito grande. Com isso, o crescimento está mais para 1,5% do que para 2%. E estamos menos pessimistas que o mercado com a inflação, porque os preços livres vão desacelerar. O IPCA vai ficar abaixo de 6%, mais perto de 5,5%.

 Valor: Para levar o IPCA ao centro da meta (4,5%), o BC teria que subir ainda mais os juros?

 Zeina: Por uma série der razões, temos para um nível menor de crescimento uma inflação mais alta. O fato é que o grande desequilíbrio no Brasil é fiscal. Não dá para trazer a inflação para baixo só com política monetária. As duas políticas (fiscal e monetária) são complementares, e não substitutas. Há um momento em que tentar compensar o lado fiscal com a política monetária se torna contraproducente, pois afeta o investimento e o potencial de crescimento. Há uma deterioração de indicadores. A variável-chave para as agências de risco é o crescimento. Se o país tivesse crescendo, não prestariam tanta atenção ao resto. O processo de desinflação tem que ser feito do lado fiscal.

Valor: Então, o uso da política monetária já chegou ao seu limite?

 Zeina: Não digo que já chegou ao limite, mas tem pouco espaço para avançar. Se for muito além vai prejudicar muito o investimento e a qualidade do crescimento. A literatura mostra que o BC com maior credibilidade não é aquele que puxa mais os juros, mas o mais habilidoso. Ser ‘dovish’ [menos inclinado a subir os juros]. Independentemente se o BC vai subir os juros mais 0,25, 0,50 ou 0,75 ponto, o que importa é que sem a política fiscal não dá para trazer a inflação para o centro da meta.

 Valor: O governo está disposto a ajustar a política fiscal?

 Zeina: É uma questão de tempo para ter mudança na política fiscal. O governo vai ter que ajustar os gastos públicos. Existe uma demanda crescente da sociedade por serviços públicos. Mas não dá para aumentar a carga tributária, ter processo inflacionário, contabilidade criativa ou expansão da dívida. Vai ter que repensar toda a política de gastos. Interromper transferências para bancos públicos e rever desoneração. É inevitável. E não pode ser daqui a dois, três anos, tem que ser logo.

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