Indústria não virou simples importadora, diz Kupfer

Flavia Lima – VE

A indústria brasileira não se tornou uma simples importadora de bens finais, como pensam alguns, mas perdeu densidade. É o que diz David Kupfer, professor licenciado e membro do Grupo de Indústria e Competitividade da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e assessor da presidência do BNDES. Para ele, a chamada “desindustrialização” é um fenômeno perceptível, mas muito concentrado no “miolo” da indústria – os setores que envolvem mais emprego e estão em diversas regiões, como o têxtil, de vestuário e moveleiro.

Para Kupfer, a infraestrutura é um entrave mais relevante ao desenvolvimento industrial hoje do que era há 20 anos, ao lado dos custos industriais e de trabalho mais caros, do imbróglio tributário e do processo de apreciação do real, variáveis que afetaram margens, capacidade de investimento e de modernização da indústria. Segundo ele, os empresários estão corretos quando dizem que, da porta da fábrica para dentro, a produtividade é semelhante com o que é visto lá fora. O problema é que a indústria está fora do “jogo da inovação” e muito dependente da difusão internacional de tecnologias.

A saída, avalia Kupfer, não é trivial. “Não é uma reunião de diretoria que decide gastar um percentual a mais da receita em inovação que vai resolver. É um processo cumulativo”. Para ele, o “passivo tecnológico” impede que a indústria tenha acesso às cadeias globais de valor mais focadas em eletroeletrônicos. Diferentemente de outros analistas, avalia que a inserção deveria ocorrer por meio do “miolo” da indústria, ainda que isso signifique penetração ainda maior de importados. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: O governo fez as desonerações pedidas, o real se depreciou e não vemos uma reação mais consistente da indústria. Por quê?

David Kupfer: Algumas questões relevantes para indústria já existiam na década de 90 e permanecem atuais, porque não foram adequadamente resolvidas. E há outras que não só já existiam e não foram resolvidas, como se agravaram. Entre elas, está a questão da infraestrutura. Embora o esforço de construção de infraestrutura tenha aumentado com relação ao passado – na década de 90 isso era praticamente inexistente -, a necessidade da economia brasileira avançou mais rápido do que a capacidade de construir a oferta. É um entrave mais relevante hoje do que era há 20 anos. Já entre os problemas que de algum modo já existiam e permanecem como entrave está a questão tributária, já de cabelo branco no Brasil.

Valor: Essa reforma tributária deveria começar por onde?

Kupfer :Teria que levar em consideração a impossibilidade de redução da carga tributária, que é certo que não pode crescer, mas também não pode encolher em função da forma como está estruturado o papel do Estado na economia brasileira. Particularmente os tributos sobre o valor adicionado deveriam incidir apenas sobre a parcela nova de valor criado na atividade. Mas, às vezes, as empresas não recebem de volta parcelas dos impostos que foram recolhidos a título de matérias-primas, porque as cadeias de débito e crédito não funcionam adequadamente. Nosso sistema tributário é ruim, muito baseado em impostos sobre produtos, muito regressivo e com pouca participação do imposto de renda. E as empresas reclamam, com razão, que ainda existem os custos com gestão tributária para dar conta dessa selva de regulamentações. Há também custos industriais importantes que em 20 anos se tornaram mais negativos, como os custos de energia.

Valor: Isso apesar da tentativa recente de reduzir esse custo?

Kupfer : Mesmo que se tivesse conseguido o corte esperado de 18%, ainda assim os custos com a energia seriam altos em termos internacionais. Além de energia, as matérias-primas, principalmente commodities que produzimos, são caras atualmente. O minério de ferro, por exemplo, é significativamente mais caro hoje e com isso a produção siderúrgica perdeu um vetor de competitividade importante. Então, temos energia cara, matéria-prima cara e custo de trabalho caro.

Valor: Há um processo de desindustrialização, como muito se fala?

Kupfer : A indústria ficou espremida entre custos crescentes em reais e mais ainda em moeda estrangeira em função do processo de apreciação do real, que resultou em receitas decrescentes em dólar. Isso apertou muito as margens, a capacidade de investimento e, em alguma medida, a capacidade de modernização da indústria. E por isso ela teve dificuldade de se expandir no período. Mas o debate da desindustrialização é extremamente complexo. O mais importante é ter claro que ao mesmo tempo em que a indústria sofreu um revés muito grande do lado dos preços, ela se beneficiou de uma ampliação importante de mercado, tanto do ponto de vista do consumo per capita quanto de uma maior diversificação da pauta de produtos consumidos no Brasil em razão do desenvolvimento inclusivo. O que aconteceu é que uma parte importante desse consumo acabou vazando para o exterior e uma boa parte dessa demanda acabou suprida por importações concentradas em insumos e bens de capital. Mas o Brasil não se tornou ainda e nem acho que vá se tornar um importador de bens finais. Nós ainda temos uma indústria com bastante capacidade de montagem de bens finais. Mas importamos muitos insumos, partes, peças e equipamentos.

“Na verdade, a indústria manteve um tamanho bastante grande no Brasil, mas perdeu densidade”

Valor: Então seria exagerado falar em desindustrialização?

Kupfer : Acho que uma visão um pouco mais abrangente seria uma melhor descrição da realidade ocorrida. Na verdade, a indústria manteve um tamanho bastante grande no Brasil, mas perdeu densidade.

Valor: O que isso significa?

Kupfer : A indústria brasileira perdeu peso com relação a ela mesma, mas continua grande. Na década de 90, a desindustrialização estava muito ligada ao topo da indústria, cujos setores estavam desaparecendo. No momento atual, a desindustrialização que se enxerga está muito ligada ao miolo. Também pelo fato de que aí a China e sua rede de produção integrada são imbatíveis. E o miolo, que inclui os setores têxtil, de vestuário, móvel, de produtos plásticos e de metal, tem muito emprego envolvido e está em diversas regiões. É diferente da base da indústria, que é produtora de commodities e insumos em grande escala e vai bem, porque o Brasil é exportador, tem excelentes recursos naturais, boa capacidade industrial e domínios das tecnologias de processo. Na verdade, o Brasil tem uma indústria muito grande e diversificada e um animal desse tamanho não pode ser descrito por trajetórias muito monocórdias.

Valor: Qual a importância da produtividade na indústria?

Kupfer : Os empresários das empresas de maior porte falam com muita convicção de uma noção que é essencialmente correta: da porta da fábrica para dentro a produtividade de engenharia, que é quanto tempo leva para fazer o produto, é muito parecida com as produtividades internacionais. A principal evidência é certa facilidade com que filiais de estrangeiras se instalam no Brasil e em pouco tempo estão produzindo em níveis semelhantes de produtividade e eficiência de outras filiais. As empresas incorporaram as tecnologias industriais básicas e conseguiram saltos importantes de produtividade. Algumas saíram pelo mundo, líderes do processo, como a WEG, a Marcopolo, a Gerdau. Mas o mundo não para e a inovação tecnológica vem em ondas, não é um processo contínuo. E a indústria local tem capacidade de se manter emparelhada, mas se atrasa quando vem uma onda de inovação. Por quê? Porque nós não estamos no jogo da inovação.

Valor: Por que a despeito do apoio público, as dificuldades de inovar ainda são tão grandes?

Kupfer : A ênfase na inovação é relativamente recente. Não havia nenhum ativismo com relação à inovação no momento da constituição dessa indústria, na década de 70. Isso era feito por absorção de tecnologias existentes, na base do ‘learning by doing’ [aprendizado pela prática]. Vem a crise dos 80, a abertura dos 90, e esse sistema empresarial brasileiro tinha capacitação tecnológica muito baixa. E não havia como imaginar que as empresas responderiam à abertura aprofundando essa dimensão tecnológica, porque o retorno é demorado. As empresas não podiam investir em tecnologia e esperar os resultados por 10 ou 12 anos, porque não sobreviveriam ao processo. Então, fizeram o caminho contrário. Para sobreviver, abriram mão do pouco de esforço tecnológico que faziam para reduzir custos em meio à hiperinflação e desorganização macroeconômica. Em geral, se substituía trabalho por máquinas, simplificando produtos e terceirizando – o chamado ‘downsizing’ [achatamento]) -, com o objetivo de reduzir custo e elevar produtividade com baixo investimento. Uma reestruturação antitecnológica.

Valor: Mas o sr. citou empresas, como a Marcopolo, a WEG…

Kupfer : Não eram empresas inovadoras propriamente ditas na década de 90. Algumas delas até se tornaram em um período mais recente. Naquela época, elas foram boas em aumentar a capacidade produtiva, muitas vezes em detrimento da capacitação tecnológica. Muitas vezes se anda mais rápido absorvendo tecnologia de terceiros do que desenvolvendo tecnologia própria. Mas, quando se chega próximo da fronteira tecnológica, para. Enquanto quem aprende a desenvolver tecnologia dá o seu próprio salto tecnológico. A estratégia de sobrevivência dessas empresas foi bem-sucedida, mas não gerou capacitação tecnológica mais consistente que permitisse, nos anos 2000, em uma situação mais favorável, dar o salto. Como houve uma onda importante de inovações ligada à tecnologia de informação, o sistema industrial brasileiro se defasou. Então, além das pressões de custo e de problemas sistêmicos, temos problema de produtividade em consequência do aumento do hiato tecnológico com relação à fronteira.

Valor: E isso sem exceções?

Kupfer : É uma visão do agregado, ela é cheia de exceções. Na automação bancária, por exemplo, já tivemos em uma posição maior no passado. Uma leitura geral indicaria que há um problema de produtividade também ligado à dimensão tecnológica. A tecnologia vem realmente quando se faz um negócio novo, e não pelos incrementos e melhorias que se introduz em um negócio existente. Então, quando a taxa de investimento dá uma parada, como deu desde 2008, esse menor investimento vai aumentando a defasagem. Em algum ponto para frente vamos ter um período de recuperação desse atraso, com uma onda de modernização e incorporação de nova geração de tecnologia, porque ela já estará mais disponível para absorção internacional. Muitos países não têm esse movimento pendular, porque vão se defasando e a indústria desaparece. Nós temos uma indústria grande e diversificada que tem essa capacidade produtiva de sobreviver e enfrentar desafios. O que ela não consegue de fato é se tornar uma indústria inovadora, que não depende da difusão internacional de tecnologias para se nutrir de inovação.

“Precisamos de um sistema industrial com grande capacidade de imitação, mas que inove também”

Valor: E essa incapacidade de inovar deve se manter?

Kupfer : Há a inovação propriamente dita e a ideia de inovação para a empresa, mas que não é nova para o mercado, que poderia ser traduzida por imitação. A imitação não é problema. Precisamos de um sistema industrial com grande capacidade de imitação, mas que inove também. O problema da imitação é que depois que eu imitei, fico parado, esperando que o líder faça a inovação para que eu o imite novamente. O que chama a atenção no caso brasileiro é que o país chegou a uma situação paradoxal: o nível de gasto com inovação é baixo se comparado aos líderes, mas relativamente alto quando comparado com países similares. Não dá para comparar com a Coreia, que investe mais de 3% em inovação, enquanto nós gastamos pouco mais de 1%. E grande parte do gasto vem de recursos públicos. Em alguns países, a proporção é 80% privado e 20% público. Aqui no Brasil é o contrário, o que não é ruim.

Valor: Por que o gasto privado é tão baixo?

Kupfer : Não é uma questão de decisão. Não é uma reunião de diretoria da empresa que decide gastar um percentual a mais da receita em inovação que vai resolver. Não vai conseguir, já cansei de ver essa situação. É um processo cumulativo. E de decidir quais são as linhas de desenvolvimento que têm potencial e mereçam receber a concentração de esforços empresariais e públicos. E isso estamos fazendo há pouco tempo. O complexo industrial da saúde é a melhor evidência de sucesso de articulação de estratégia empresarial e política pública. No caso da saúde, boa parte da despesa para aquisição de medicamentos e equipamentos é originada de financiamento público, do SUS por exemplo. A criação do genérico foi um passo importante na construção desse modelo de articulação entre público e privado. Ele permitiu o surgimento de laboratórios com capacidade produtiva e que agora estão tendo alguma capacidade de pesquisa e inovação. É um caso interessante, que mostra como o processo é demorado.

Valor: E como fica a inserção da indústria nas chamadas cadeias globais de valor?

Kupfer : Nesse processo, a atividade produtiva está dividida em um número grande de subatividades, feitas em regiões geográficas diferentes. Isso gera uma corrente de comércio internacional enorme. Mas se o país tem muitas barreiras tarifárias e não tarifárias, impõe muitas dificuldades ao comércio, a empresa que organiza a cadeia não vai produzir naquele país. Alguns acreditam que as regulações da política comercial brasileira dificultam a inserção do Brasil nessas cadeias internacionais de valor.

Valor: O sr. acredita nisso?

Kupfer : Entendo que nosso problema é um pouquinho diferente. Cometeríamos um erro de política se ajustássemos todas as nossas regulações para favorecer a inserção nessas cadeias de valor, pois teríamos benefício pequeno e custo alto para a atividade industrial. Essas cadeias normalmente se organizam em torno de produtos com características de montagem de partes e peças muito focados em indústrias eletroeletrônicas. Pelo passivo tecnológico que acumulamos em nosso processo de desenvolvimento industrial, não conseguimos entrar nesses setores. Então, precisamos pensar em cadeias de valor no que diz respeito ao miolo da indústria, que não está cabendo dentro do Brasil. Para isso não podemos reagir negativamente à maior penetração de importados na indústria tradicional. Vamos ter que conviver com a presença mais extensa de produtos têxteis, de vestuário, calçados, móveis, produzidos internacionalmente. No fundo, a gente vai trocar o esforço de manter um mercado de tamanho 100, que é o mercado brasileiro, por um mercado mundial de tamanho 200, dos quais a gente mantém 50%. Os mesmos 100, mas em um formato diferente. Teremos um bônus da integração produtiva que vai pagar o preço, porque nós estaremos abrindo linha de expansão para o setor mais frágil da indústria, no lugar de abrir uma linha de expansão para um setor hoje ausente. Não vamos construir uma indústria eletroeletrônica pela via da integração internacional.

Valor: Como reinscrever o miolo da indústria nas cadeias globais?

Kupfer : É preciso definir parceiros com os quais o Brasil possa manter relações de integração produtiva capazes de gerar ganhos e benefícios importantes. Acho que esses parceiros são nossos vizinhos sul-americanos e eventualmente outros países da Europa. Dificilmente estarão na Ásia, pela distância e pela própria competitividade do sistema asiático nesses setores. E os serviços prestados à indústria precisam de avanço importante em qualidade e em produtividade para que as empresas brasileiras possam construir cadeias de valor mais longas. Se eu fizer um sapato simples, vou pegar o couro, dobrar, costurar e vender. Minha cadeia vai ser muito curta, não terei espaço para colocar muita gente, nem muita renda para distribuir. O importante é esticar essa cadeia. Como a Embraer, pioneira que conseguiu se concentrar em atividades mais nobres, pesadamente apoiada por políticas públicas. Ou como a Apple no setor eletroeletrônico, que fica com a maior parte do valor, mas não produz nada, apenas ideias, concepções, desenhos, marcas. Tudo é produzido na China, mas do iPad de US$ 300, US$ 120 ficam com a Apple. Temos que induzir tecnologia no topo da indústria para que ele possa fornecer tecnologia embutida para o restante da indústria. No meu modo de ver, essa é a questão fundamental.

 

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