O que a compra do WhatsApp revela sobre juros e desigualdade

 – Exame.com

São Paulo – Desde que o Facebook comprou o WhatsApp por US$ 19 bilhões, muitas perguntas surgiram: vão conseguir monetizar o serviço? O valor foi alto demais? Houve um leilão nos bastidores?

Mais recentemente, duas figuras reconhecidas dosEstados Unidos arriscaram comentários sobre o que a aquisição significa para a economia de uma forma geral.

Primeiro, foi a vez de Robert Reich, ex-secretário do Trabalho de Bill Clinton e professor da Universidade de Berkeley, na Califórnia.

Em um post no seu blog, ele afirmou que a transação ilustra as razões para o aumento da desigualdade.

De acordo com Reich, as grandes empresas costumavam ser aquelas que produziam muitas coisas e empregavam muita gente. Na nova economia da informação, isso mudou e o que gera valor é a qualidade da tecnologia e os efeitos de rede (a quantidade de pessoas conectadas).

O resultado é que “não existe mais uma correlação entre o tamanho da base de consumidores e o número de empregados necessários para servi-los”. As maiores empresas de tecnologia atuais são grandes no sentido financeiro, mas pequenas do ponto de vista concreto.

Desigualdade

O alcance global da internet amplia o “efeito superstar” – aqueles poucos que se destacam com grandes ideias e novos serviços são bem recompensados, mas isso gera menos impacto no resto da economia.

“Os vencedores aqui são grandes vencedores. Os 55 funcionários do WhatsApp estão agora muito ricos. Seus dois fundadores se tornaram bilionários. E os parceiros na firma de capital também levaram uma fortuna. E o resto de nós? Somos vencedores no sentido de que temos agora uma forma ainda mais eficiente para nos comunicarmos. (…) A produtividadecontinua crescendo, assim como os lucros corporativos. Mas os empregos e salários não estão crescendo”, diz Reich.

A estagnação dos salários e o aumento da desigualdade nos Estados Unidos já foram associados a vários outros fenômenos, da globalização à tributação. A tese de Reich não é nova, mas continua controversa: afinal, ainda é cedo para medir e entender todos os impactos econômicos da revolução digital.

Juros

Outra figura importante que entrou no debate foi Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro americano, professor de Harvard e chefe do Conselho Econômico Nacional no início do administração Obama.

Em um discurso para economistas no estado americano da Virginia na última quarta-feira, ele disse que as empresas de tecnologia atuais, como Apple eGoogle, estão “nadando em dinheiro” e simplesmente não sabem o que fazer com ele.

Na era da informação, pouco investimento é necessário para criar uma grande companhia – e isso afeta os juros:

“Considerem o fato de que o WhatsApp tem um valor de mercado maior que o da Sony com praticamente nenhuma necessidade de investimento de capital para isso. Considere o fato de que dezenas de milhões de dólares costumavam ser necessários para começar uma nova empreitada. (…) Tudo isso significa demanda reduzida para investimento, com consequências para o fluxo e para o nível de equilíbrio das taxas de juros”, diz Summers.

Em outras palavras, a economia se alimenta de dinheiro em movimento, e se ele não tem para onde ir e fica estacionado, o banco central precisa cortar os juros. Summers reconhece que há muitas outras razões para os juros baixos nos Estados Unidos: entre elas, as consequências da crise financeira, o baixo crescimento populacional e a própria desigualdade.

Mesmo que as teses sejam verdadeiras, recuar no avanço tecnológico é tão impossível quanto indesejável. O mundo terá de encontrar uma nova forma de alinhar todos estes fatores; caso contrário, nas palavras de Reich, “nossa economia não vai conseguir gerar demanda o suficiente para se sustentar, e nossa sociedade não conseguirá manter coesão o suficiente para nos manter juntos.”

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