Tendência para os investimentos no Brasil

Por Marcelo Domingos

O brasileiro cada vez vive mais: nossa expectativa média de vida já ultrapassa os 74 anos de acordo com o IBGE, dado que tem um impacto enorme na vida das pessoas, que cada dia mais precisarão fazer seu dinheiro crescer ao longo do tempo, em um cenário de juros baixos daqui por diante. Além disso, o teto para o benefício pelo INSS é de apenas R$ 4.390,24, baixo demais para a manutenção mínima de qualidade de vida pela classe média.

Anteriormente, os investidores em geral – pessoas físicas ou fundos de pensão, esses últimos mais qualificados – que aplicassem em títulos públicos e fundos de renda fixa conseguiam retornos financeiros muito mais atraentes que outras opções de alocação mais sofisticadas e relacionadas à economia real. Esse rendimento, no entanto, foi diminuindo com a queda dos juros, que hoje encontra-se na casa dos 11% anuais. Esse rendimento, quando descontados a inflação e os impostos, fica insuficiente para garantia de um futuro mais digno, mesmo que nossas taxas de juros por aqui ainda estejam dentre as mais altas do mundo.

Logo, são exigidos retornos sobre a carteira de investimentos dos planos de previdência superiores, o que somente se torna possível quando combinam-se investimentos mais conservadores (alinhados à taxa Selic) com outros mais arrojados, capazes de entregar mais valor em períodos mais longos. Neste sentido, ganha força então o movimento de migração dos investimentos para fundos multimercados, de ações, participações e outras classes também mais sofisticadas.

Investir não ficou mais difícil: apenas estamos vivendo no Brasil uma evolução no tema investimentos, em que conviveremos não somente com mais risco, mas com mais transparência de custos aos investimentos, e maior sofisticação também. Já era assim no mundo inteiro, menos aqui. Ainda, a aparente oposição entre viver ou juntar dinheiro deve mesmo ser colocada em pauta, pois o gasto de hoje é o déficit de amanhã (e nosso governo também precisa aprender isto!).

Cada vez mais o nosso mercado, a exemplo do que já ocorre em economias mais desenvolvidas, premiará investidores que reservem parte de seus recursos para investir, também, em fundos multimercados, de ações e de participações. E cada vez mais veremos as pessoas cuidando também da contratação de seus próprios veículos de previdência privada.

A não consideração destes fatos põe em risco a capacidade das famílias ou dos fundos de pensão de cumprirem com suas metas de longo prazo e, consequentemente, se fará necessária uma maior contribuição ou a diminuição dos benefícios futuros projetados. A constituição de um portfólio diversificado, com várias classes de ativos, principalmente ações, e com retornos compatíveis à necessidade de superar as metas atuariais, se torna quase que uma exigência, visto que dificilmente será possível obter retornos maiores mantendo-se uma parcela muito maior investida em ativos financeiros de baixo risco. O mesmo vale para o planejamento financeiro pessoal, que precisa passar a ser mais racional.

Platão (428-347 a.C.) demonstrou, com o famoso Mito da Caverna, que sair das sombras em direção à luz promove, inicialmente, o desconforto representado pela dor nos olhos. Romper com paradigmas é difícil, mas quando se revela a verdade não pode mais ser contestada: haverá maior diversificação em direção a fundos multimercados, de ações e participações no Brasil, por investidores ávidos por ganhos maiores que os proporcionados pelos títulos públicos, em ativos cada vez mais atrelados à economia real.

Cada vez mais comum será a postura de longo prazo, em que o investidor não está de olho no sobe e desce da bolsa, mas na efetiva participação em empresas promissoras e que ofereçam o menor risco possível. Contar com os serviços de gestores capazes de analisar e principalmente monitorar seus investimentos será também palavra de ordem, pois diversos são os pontos críticos relacionados aos ativos de investimentos que precisam ser analisados e monitorados de forma plena (estrutura acionária, administração; situação econômica-financeira; dentre outros), a fim de trazer retornos destacados num ambiente dinâmico.

Não é propósito deste breve artigo negar a inflação como um fenômeno fiscal e monetário, que tem a ver com o poder de compra da moeda, e muito menos dizer que nossa ineficaz política fiscal conseguirá manter os juros neste patamar atual. O que importa é que, a despeito da recente turbulência econômica e política que vivemos por aqui, não voltaremos mais aos patamares de juros antigos, e essa tendência de diversificação e sofisticação dos investimentos é inexorável, já iniciada.

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