Entrevista – MENDONÇA DE BARROS: INFLAÇÃO SOBE MESMO COM ATIVIDADE MAIS FRACA

 Angelo Pavini
O Brasil vive uma situação de inflação ascendente mesmo em um ambiente de baixo crescimento que só não é pior porque a oferta de crédito tem sido reduzida por conta do alto endividamento do consumidor e da inadimplência. Hoje, o país tem uma inflação estrutural acima de 5% ao ano por conta de gargalos de oferta. Essa inflação vai subir ainda mais se o governo continuar perseguindo um crescimento econômico acima de 3% este ano.

O alerta é do economista e ex-ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, estrategista da gestora independente Quest Investimentos. Em entrevista ao blog Arena, ele alerta que será preciso reduzir o crescimento da economia para segurar a inflação e, ao mesmo tempo, incentivar os investimentos para ampliar a oferta de produtos.

Os grandes riscos que temos pela frente, diz, são o governo continuar tomando medidas paliativas para controlar a inflação, o que poderá desorganizar a economia mais adiante, e o reaquecimento da economia americana.  Mendonça de Barros fala também sobre o modelo de crescimento industrial brasileiro.

Arena: Como você avalia a situação da inflação no Brasil hoje? A alta é temporária e não representa risco? Ou estamos no início de um ciclo de alta mais longo?

Luiz Carlos Mendonça de Barros: Estamos vivendo hoje as consequências de dois gigantescos choques externos que atingiram nosso sistema de preços no ano passado: o aumento de preços de alimentos motivado pela seca nosEstados Unidos e a desvalorização do real em quase 20%, resultado da política do governo Dilma de estimular as exportações e proteger a indústria.

No caso dos alimentos “tradable” (com preços definidos no  mercado internacional) estes dois choques ocorreram em conjunto, magnificando seus efeitos sobre os índices internos de inflação. Esta situação de choque de oferta foi agravada no início deste ano por outro choque de preços de alimentos em função da seca do Nordeste e das chuvas no Centro Sul.

Estes efeitos podem ser vistos com clareza no gráfico abaixo em que se coloca o IPCA cheio e uma medida de núcleo que expurga os feitos dos alimentos no domicílio. Com esta medida do núcleo – nos moldes do usado pelo Fed nos Estados Unidos – podemos ver que a inflação ex-alimentos tem uma tendência de estabilidade nos últimos anos, oscilando ao redor dos 5% ao ano.

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Fonte: Quest Investimentos

Na Quest, nós fizemos outra medida de núcleo retirando, além dos alimentos, a influência dos preços de energia elétrica, que foram manipulados pelo governo neste ano, e dos combustíveis pela política de preços da Petrobras; o leitor pode ver esta medida de núcleo em um gráfico abaixo.

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Fonte: Quest Investimentos

Por esta metodologia, podemos ver que o problema da inflação no Brasil precisa ser medido corretamente e, feito isto, ter-se uma visão analítica um pouco mais sofisticada do que a que prevalece hoje na imprensa e no mercado financeiro.

Existe um movimento ascendente dos preços, mesmo em um ambiente de baixo crescimento e que deriva basicamente de gargalos de oferta em parcela importante do tecido econômico, principalmente no mercado de trabalho e setores de logística e movimentação de carga; neste sentido, será preciso um controle mais rígido da demanda, seja através do aumento dos juros, seja via uma política fiscal mais conservadora.

A situação atual não é pior porque a oferta de crédito, principalmente ao consumidor, tem ajudado a tarefa do BC de voltar a ter controle sobre a inflação. Temos no esgotamento do processo de aumento do endividamento do consumidor, medido claramente pelo aumento da inadimplência – tornada publica pelo sistema SERASA – um mecanismo automático de limitação da demanda. Neste sentido, os choques externos de preços que ocorreram, ao corroerem o valor real dos salários, reforça este disjuntor de demanda que existe no Brasil e que desliga quase que automaticamente.

Mas, certamente, não vivemos a situação inflacionária quase fora de controle que muitos tentam passar….

Arena: Qual sua avaliação da atuação do BC e do governo para controlar a inflação? Você concorda que temos uma inflação estrutural de 5% ao ano?

Mendonça de Barros: Sim. Acredito que a inflação estrutural no Brasil de hoje é superior a 5% ao ano e com tendência de elevação gradual se o governo continuar a buscar uma taxa de crescimento de 3% ou mais ao ano via estímulos ao consumo. Temos uma situação de gargalos de oferta em mercados importantes, principalmente o de mão de obra com alguma qualificação e o de oferta de serviços de infraestrutura, como portos e estradas.

Em situações como esta, é necessário uma redução da atividade econômica e uma política de estímulos ao aumento da oferta via investimentos. No caso brasileiro de hoje, isto corresponde a uma aceleração das concessões privadas em condições que atraiam o capital privado e programas inteligentes de treinamento de mão de obra sem qualificação.

Os dois instrumentos mais importantes para a redução da atividade econômica enquanto se estimula o aumento da oferta seriam uma política fiscal mais restritiva, com a volta do primário para algo perto dos 3% do PIB e um aumento dos juros.

Arena: Quais são os principais riscos que temos hoje no horizonte para a economia brasileira? Internos e externos?

Mendonça de Barros: A inflação é um risco importante, principalmente às vésperas de uma eleição presidencial. Por falta de tempo útil para trazer a inflação para mais próximo do centro da meta, o governo pode acelerar o uso de medidas paliativas e que vão aumentar a intensidade dos desequilíbrios estruturais que já temos adiante.

Outro risco, para a segunda metade do ano, vem de fora em função da anunciada mudança de intensidade do afrouxamento monetário nos Estados Unidos e da possibilidade de uma forte onda de valorização do dólaramericano nos mercados de câmbio, com a consequente desvalorização de moedas emergentes como o real; uma forte desvalorização do real pode piorar ainda mais a situação da inflação no Brasil.

Arena: Por que a economia brasileira não cresce? O modelo industrial brasileiro está superado?

Mendonça de Barros: Acho que adjetivo mais correto é o esgotamento de um modelo de crescimento. Nos anos Lula, os estímulos foram suficientes para fazer a economia crescer e ocupar os espaços ociosos que existiam em mercados importantes como o da mão de obra, de crédito ao consumo, da ocupação da infraestrutura econômica.

Outras forças conjunturais ajudaram a empurrar a economia como o fortalecimento de nossos termos de troca e a valorização do real na medida em que nossas contas externas passaram a cumular saldos positivos crescentes. Mas o governo Lula esqueceu-se do lado do investimento, principalmente na infraestrutura econômica.

No governo Dilma, as forças conjunturais que empurraram a economia nos anos Lula se esgotaram e forças contrárias ao crescimento apareceram do lado da oferta. Outro fator importante foi que o endividamento das famílias, depois de vários anos de crescimento contínuo, atingiu seu limite estrutural e muitos casos entraram na zona da inadimplência, principalmente com a aceleração da inflação de alimentos.

Arena: Qual seu cenário para o PIB, juros, dólar e inflação neste ano e no próximo?

Mendonça de Barros: Crescimento do PIB entre 2,80% e 3,00% com um aumento de 200 pontos (2 pontos percentuais) na taxa Selic; a taxa de câmbio deve ficar pouco acima dos R$ 2,00 e um IPCA da ordem dos 5,80%.

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