Economist questiona: “será que o Brasil estragou tudo?”

Eduardo Tavares –  Arena do Pavini

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A revista britânica The Economist voltou a colocar o Brasil na capa de sua edição para a América Latina. A publicação retomou um assunto que foi destaque há quatro anos: o crescimento da economia brasileira. Só que dessa vez a abordagem é bem menos agradável.

A imagem de capa da edição que chega às bancas hoje é praticamente a mesma da edição de novembro de 2009, mas com uma diferença crucial. A foto anterior mostrava o Cristo Redentor decolando, e a revista anunciava “O Brasil decolou”. A atual exibe o mesmo Cristo, mas agora caindo, em rota de colisão com o Corcovado, e a pergunta: “será que o Brasil estragou tudo?”.

Segundo a reportagem, em 2009 havia vários motivos para supor que a economia brasileira estivesse, afinal, em trajetória ascendente. O cenário era de estabilidade, conquistada “durante os mandatos de Fernando Henrique Cardoso, na década de 1990”. Na década seguinte, sob a batuta de Lula, a economia acelerou, a ponto “de mal sentir os impactos da crise de 2008, e de ter, em 2010, sua melhor performance em um quarto de século, crescendo 7,5%”.

Houve ainda uma “magia adicional”, em 2010, quando o Brasil foi anunciado como sede da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016. De acordo com a Economist, tudo isso fez com que Lula “persuadisse seus eleitores a votar em sua protegida tecnocrata, Dilma Rousseff”. Desde então, nas palavras da revista, “o Brasil voltou à terra com um solavanco”.

Voo de galinha

A revista cita o fraco crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2012, o qual avançou apenas 0,9%, e menciona também as manifestações que tomaram conta do país em 2013. “As pessoas foram às ruas para reclamar do elevado custo de vida, dos serviços públicos precários e da ganância e corrupção dos políticos”, lembra a reportagem.

Nesse cenário, a Economist afirma que muitos perderam a fé na aposta de que a economia brasileira tinha, finalmente, ido às alturas. “A maioria diagnosticou que aquele movimento havia sido apenas mais um ‘voo de galinha’, como os brasileiros batizaram seus espasmos econômicos”.

O “biquíni” da infraestrutura

Outra questão à qual a Economist deu ênfase foi a das reformas no governo. De acordo com a publicação, o país fez pouquíssimo para arrumar a casa nos tempos de forte crescimento econômico. “O setor público brasileiro impôs uma carga tributária pesada sobre o setor privado”, observa a reportagem. “As empresas enfrentam a mais onerosa estrutura de impostos do mundo, os impostos sobre a folha de pagamento chegam a 58% dos salários e o governo inverteu sua lista de prioridades de gastos.”

Para ilustrar essa realidade, a revista compara os gastos com aposentadorias aos investimentos em infraestrutura. Segundo a Economist, apesar de ser um país de população jovem, o Brasil gasta tanto em aposentadorias quanto os países do Leste Europeu, onde a população de idosos é três vezes maior. “Em contrapartida, apesar das proporções continentais do país, e da terrível malha de transportes, os investimentos em infraestrutura são tão pequenos quanto um biquíni fio-dental.”

A reportagem lembra que o Brasil investe apenas 1,5% de seu PIB em infraestrutura – para uma média global de 3,8% – e o estoque de infraestrutura do país é equivalente a 16% do PIB, comparado com os 71% de outras grandes economias.

Dilma intervém mais que Lula

Segundo a Economist, Dilma não tem sido hábil para lidar com esses problemas da economia brasileira. E, de quebra, ela adicionou mais um à lista, “ao interferir muito mais do que seu antecessor, o pragmático Lula”, diz a reportagem. Na opinião da revista, Dilma espantou os investidores de grandes projetos de infraestrutura e minou a reputação de “retidão econômica” conquistada a duras penas ao enviar sinais públicos ao presidente do Banco Central para que as taxas de juros baixassem.

Pontos fortes

Depois de uma enxurrada de críticas, a reportagem da Economist deixa para os três parágrafos finais as observações sobre as oportunidades que o país tem nas mãos. A revista afirma que, devido à capacidade empreendedora do setor agrícola, o país é o terceiro maior exportador de alimentos do mundo. E, “embora o governo tenha feito o processo ser caro e lento, em 2020 o Brasil será um grande exportador de petróleo”.

Além disso, a publicação cita os avanços da ciência, com ênfase nas áreas de biotecnologia e genética. “As marcas de bens de consumo que cresceram junto com a evolução da classe média brasileira estão prontas para conquistar outros países e, apesar dos protestos recentes, não há as mesmas tensões sociais ou éticas de países como Turquia e Índia.”

Tendo em vista esse potencial, a Economist aponta três pontos para que a economia avance. O primeiro é “redescobrir o apetite por reformas” e reestruturar os gastos públicos, especialmente com aposentadorias. Em segundo lugar, o governo deve se empenhar em melhorar a competitividade das empresas e encorajar investimentos, abrindo o mercado e expondo as companhias à competição mundial. A terceira medida é uma “urgente reforma política”. “O Brasil não está condenado ao fracasso: se Dilma Rousseff colocar a mão no acelerador, ainda há uma chance de decolar novamente”, diz a Economist.

Uma ideia sobre “Economist questiona: “será que o Brasil estragou tudo?”

  1. Comentário de EMPIRICUS

    Acho interessante todo este frenesi em torno da capa da Economist. Recebemos até email de gente falando que “a Empiricus não deu a devida atenção para isso.” Isso é engraçado. Se você abrir o Facebook de metade dos alunos de graduação de Economia da FGV, vai ver lá o link pra matéria dizendo coisas tipo: “Sad but true”, “What I always said” – com suas variações; sempre em inglês, claro, para denotar a enorme cultura desse povo.

    Não há nada mais clichê do que citar a Economist. Não existe um insight novo sequer na reportagem. Aliás, faltou o principal: o mea culpa da revista. Ou não foi ela que meteu o Cristo decolando na Capa, sugerindo, direta ou indiretamente, a compra do kit Brasil? Não faltou à própria revista, em sua edição anterior, citar os riscos de que as coisas caminhassem mal, exatamente como acabaram caminhando? Nós não estragamos tudo. Parte dos problemas é bem antiga e vocês que não identificaram.

    Em vez de falar que bagunçamos tudo, não seria melhor focar no que devemos fazer à frente? O passado não se muda. Queremos nos aproveitar do cenário difícil e do esgotamento do modelo de crescimento apoiado em consumo. Precisamos aumentar oferta agregada, resolver problemas de produtividade e crescer de forma sustentada. Racional top down passa por infraestrutura na veia. What I always said: um combo Cosan, ALL e Arteris faz casamento interessante entre o micro e o macro. Sou um titã do otimismo e só quero saber do que pode dar certo.

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